Quais habilidades vão diferenciar os profissionais do Direito nos próximos anos?

Jakob Norfeld
Gilmar Stelo

A transformação da advocacia está mudando o perfil de profissional valorizado pelo mercado. De acordo com o Doutor Gilmar Stelo, advogado e fundador do Stelo Advogados, o conhecimento técnico continua indispensável, mas passa a dividir espaço com competências relacionadas à tecnologia, análise de informações, comunicação, estratégia e gestão. Em 2026, o próprio Conselho Federal da OAB colocou a capacitação para o uso ético e seguro da inteligência artificial entre as prioridades da profissão, com um plano nacional voltado à formação e à integração tecnológica da advocacia. 

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O conhecimento técnico ainda será suficiente?

Dominar legislação, jurisprudência e interpretação jurídica continuará sendo a base da profissão. A mudança está no que se acrescenta a essa formação. Um advogado que conhece profundamente sua área, mas não consegue compreender novas ferramentas, interpretar dados ou acompanhar transformações do mercado pode encontrar mais dificuldades para responder às demandas que surgem fora do modelo tradicional de trabalho. A combinação entre conhecimento técnico, visão estratégica e familiaridade com novas soluções tende a ampliar a capacidade de atuação diante de problemas cada vez mais complexos.

Essa transformação não significa substituir o conhecimento jurídico pela tecnologia. A OAB vem tratando a inteligência artificial como instrumento que exige capacitação, supervisão e uso responsável. Entre as diretrizes discutidas pela entidade estão a proteção de dados, o sigilo profissional, a transparência e a responsabilidade humana sobre os resultados produzidos pelas ferramentas. Nesse contexto, compreender os limites e as possibilidades da tecnologia também se torna parte importante da preparação profissional, especialmente para evitar decisões baseadas em resultados que não tenham sido devidamente analisados.

Para o Doutor Gilmar Stelo, advogado e fundador do Stelo Advogados, esse cenário torna a formação contínua especialmente relevante. A atualização profissional deixa de ser apenas uma forma de acompanhar alterações legislativas e passa a envolver também a capacidade de compreender como novas tecnologias e modelos de atuação estão modificando o exercício do Direito. A disposição para aprender continuamente pode, portanto, se tornar uma competência tão importante quanto o domínio das ferramentas tradicionais utilizadas na prática jurídica.

Gilmar Stelo
Gilmar Stelo

Por que saber usar tecnologia será cada vez mais importante?

Assim como destaca o Doutor Gilmar Stelo, a tecnologia já alcançou atividades que fazem parte da rotina jurídica, como organização de documentos, pesquisa, análise de informações e automação de tarefas. O diferencial, portanto, não está simplesmente em utilizar uma ferramenta, mas em saber avaliar quando ela é adequada, quais limitações possui e como seus resultados devem ser verificados. Essa capacidade de análise é importante para que o ganho de produtividade não comprometa a qualidade do trabalho ou a segurança das informações utilizadas em cada demanda.

A própria OAB lançou, em julho de 2026, uma ferramenta para auxiliar advogados na identificação de documentos produzidos com inteligência artificial. A iniciativa integra um programa nacional de soluções tecnológicas e mostra que a familiaridade com recursos digitais está deixando de ser uma habilidade periférica para ganhar espaço na rotina profissional. Nesse cenário, acompanhar a evolução dessas ferramentas passa a fazer parte da preparação do advogado, que precisa compreender tanto suas aplicações práticas quanto os cuidados envolvidos em seu uso.

Quais competências humanas podem ganhar mais valor?

Quanto mais tarefas operacionais forem automatizadas, maior tende a ser a importância de habilidades que dependem de interpretação, julgamento e relacionamento. Comunicação clara, capacidade de negociação, escuta, argumentação e compreensão dos interesses envolvidos em uma disputa podem se tornar diferenciais ainda mais relevantes para quem atua no Direito. Essas competências permitem compreender melhor as necessidades de cada parte e construir respostas mais adequadas à complexidade das situações enfrentadas.

A discussão sobre advocacia multiportas reforça essa mudança. Em vez de considerar o processo judicial como único caminho, a abordagem amplia as possibilidades de solução para incluir métodos consensuais e estratégias preventivas. Isso exige profissionais capazes de analisar o problema antes de escolher automaticamente uma medida judicial. A escolha do caminho mais adequado depende, portanto, da avaliação das circunstâncias, dos objetivos envolvidos e das consequências que cada alternativa pode produzir.

O Doutor Gilmar Stelo considera que essa combinação entre conhecimento técnico e capacidade de interpretar situações complexas tende a fortalecer uma atuação jurídica mais estratégica. O profissional deixa de concentrar seu trabalho apenas na resposta ao conflito e passa a participar também da identificação de alternativas, riscos e oportunidades de solução. Essa postura amplia o papel do advogado e favorece uma atuação mais próxima das necessidades concretas de pessoas e empresas em diferentes contextos.

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