Com a Selic em 13,75% ao ano, nível definido pelo Copom em setembro, o custo do dinheiro segue elevado no Brasil. Na perspectiva de Marcio Alaor de Araujo, executivo do mercado financeiro, o cenário torna ainda mais importante a escolha da estrutura de capital, ou seja, a combinação entre dívida e recursos próprios usada para financiar o crescimento. Comparar as duas fontes ajuda a tomar decisões mais equilibradas.
Como funciona o financiamento por dívida
O financiamento por dívida inclui empréstimos bancários, linhas de fomento, debêntures e outros instrumentos em que a empresa recebe recursos e se compromete a devolvê-los com juros em prazos definidos. A principal vantagem é que os sócios mantêm o controle e a participação integral no negócio.
A dívida também oferece benefício tributário, já que os juros pagos podem ser deduzidos na apuração do imposto de renda em determinados regimes. Quando a empresa consegue investir os recursos com retorno superior ao custo do empréstimo, o endividamento amplia o ganho dos sócios e acelera o crescimento.
Os riscos do endividamento
O outro lado da dívida é o compromisso fixo de pagamento. Parcelas e juros precisam ser pagos independentemente do desempenho da empresa. Em períodos de queda nas vendas ou de aumento de custos, o peso das obrigações financeiras pode comprometer o caixa, reduzir a capacidade de investimento e, em casos extremos, colocar o negócio em risco.
Conforme aponta Marcio Alaor de Araujo, com juros elevados a margem de segurança diminui. Projetos que seriam viáveis com crédito mais barato deixam de fazer sentido, e empresas muito alavancadas ficam vulneráveis a qualquer variação nas condições de mercado. Avaliar a capacidade de pagamento em cenários adversos é indispensável antes de assumir novas dívidas.

Como funciona o capital próprio
O financiamento com capital próprio ocorre quando os sócios aportam recursos ou quando a empresa recebe novos sócios e investidores, como fundos de investimento ou investidores estratégicos. Não há obrigação de devolver o dinheiro em prazos fixos, e a remuneração depende dos resultados do negócio.
A principal vantagem é a flexibilidade. Sem parcelas a pagar, a empresa enfrenta períodos difíceis com mais tranquilidade. Investidores qualificados também podem contribuir com experiência, contatos e governança. O custo, porém, aparece na diluição da participação dos fundadores e na divisão dos resultados futuros, além da necessidade de compartilhar decisões estratégicas com os novos sócios.
O custo invisível do capital próprio
Muitos empresários consideram o capital próprio gratuito por não envolver juros. A percepção é equivocada. Investidores esperam retornos superiores aos de aplicações seguras, justamente porque assumem mais risco. Em um país com juros elevados, a expectativa de retorno sobre o capital investido também é alta.
O capital próprio, pondera Marcio Alaor de Araujo, costuma ser a fonte mais cara de financiamento no longo prazo, especialmente quando a empresa cresce e se valoriza. Ceder uma participação no início pode significar abrir mão de uma parcela relevante do valor que será criado nos anos seguintes, o que exige uma análise cuidadosa antes de qualquer negociação.
Encontrar o equilíbrio na estrutura de capital
Não existe estrutura de capital ideal para todas as empresas. Negócios com receitas estáveis e previsíveis suportam mais dívida. Empresas em fase de crescimento acelerado, com resultados ainda incertos, tendem a depender mais de capital próprio. O setor, o momento econômico e os planos dos sócios também influenciam a escolha.
Como destaca Marcio Alaor de Araujo, revisar a estrutura de capital periodicamente permite ajustar a combinação às condições de mercado. Quando os juros caem, a dívida pode se tornar mais atrativa. Quando sobem, preservar a solidez financeira ganha prioridade. Decisões tomadas com disciplina sustentam o crescimento sem expor a empresa a riscos excessivos.