A digitalização de sistemas informais de transferência de valores está aproximando estruturas tradicionais, como hawala, de aplicativos de mensagens criptografadas, fintechs e ativos virtuais. Um relatório publicado pela Força-Tarefa de Ação Financeira (FATF) em 3 de setembro de 2026 alerta que essa combinação pode ampliar a velocidade, o alcance internacional e a capacidade de ocultação de redes profissionais de lavagem de dinheiro.
Segundo a organização, operadores desses sistemas utilizam ativos virtuais, incluindo stablecoins, para liquidar saldos entre si. Aplicativos de comunicação e outras plataformas digitais podem ser empregados para coordenar as operações, enquanto carteiras de criptoativos e serviços financeiros funcionam como pontos de movimentação dos recursos.
A FATF ressalva que a presença de ativos virtuais nesse tipo de estrutura não significa que seu uso seja necessariamente ilegal. O alerta se concentra na forma como diferentes instrumentos podem ser combinados para dificultar o rastreamento de valores e conectar redes informais a canais financeiros convencionais.
Como funciona o chamado hawala digital
Hawala e outros sistemas semelhantes são mecanismos informais de transferência de valores que podem operar por meio de compensações entre intermediários, sem que cada transação dependa do deslocamento físico de dinheiro entre os países envolvidos. Na versão digital identificada pela FATF, essas práticas passam a contar com ferramentas tecnológicas capazes de acelerar a comunicação e ampliar a coordenação entre operadores.
De acordo com o relatório completo da FATF, a transformação inclui o uso de aplicativos de mensagens criptografadas, empresas de tecnologia financeira, carteiras de ativos virtuais, stablecoins e ferramentas de inteligência artificial. A combinação desses recursos pode permitir que as redes atuem em diferentes jurisdições com maior rapidez e menor exposição.
A análise foi baseada em informações de mais de 50 jurisdições integrantes da rede global da FATF. Mais de 80% das jurisdições consultadas identificaram sistemas de banking clandestino e provedores semelhantes como canais relevantes para a lavagem profissional de dinheiro. Quase 70% dos respondentes também observaram a integração de novas tecnologias ao chamado “hawala digital”.
Conexão com bancos e plataformas de pagamento
O documento destaca que as estruturas informais não operam necessariamente isoladas do sistema financeiro tradicional. Contas bancárias, plataformas de pagamentos, provedores de serviços financeiros, cartões pré-pagos, IBANs virtuais e carteiras de criptoativos podem atuar como pontos de entrada ou saída para recursos ilícitos, dependendo da forma como são utilizados.
Essa conexão amplia o desafio para autoridades e empresas responsáveis por controles de prevenção à lavagem de dinheiro. Em vez de depender de um único canal, uma rede pode combinar transferências bancárias, dinheiro em espécie, comércio, metais preciosos e ativos virtuais para movimentar ou compensar valores entre diferentes participantes.
As stablecoins aparecem nesse contexto por oferecerem uma representação digital de valor que pode ser transferida entre carteiras e plataformas. Para a FATF, o risco está relacionado à inserção desses instrumentos em estruturas profissionais de ocultação de recursos, e não à natureza tecnológica do ativo isoladamente.
Carteiras digitais entram no debate regulatório
O relatório também chama atenção para as carteiras de criptoativos, incluindo as modalidades autocustodiadas, que permitem ao usuário manter o controle direto das chaves de acesso. Essas ferramentas podem fazer parte de operações legítimas, mas aparecem no debate internacional porque dificultam, em determinadas situações, a identificação dos responsáveis e a aplicação de controles padronizados.
A preocupação da FATF envolve ainda a utilização de inteligência artificial e canais criptografados para organizar atividades financeiras clandestinas. A tecnologia pode reduzir o tempo necessário para coordenar transações, facilitar o contato entre participantes e ampliar a capacidade de adaptação de redes que atuam em mais de um país.
O alerta reforça que o enfrentamento da lavagem de dinheiro exige uma visão integrada da infraestrutura financeira. Investigações concentradas exclusivamente em bancos, exchanges ou carteiras digitais podem não capturar toda a operação quando os recursos circulam entre serviços formais, mecanismos informais e diferentes classes de ativos.
Desafio internacional de supervisão
Por envolver jurisdições com regras e níveis de supervisão distintos, o chamado hawala digital depende de cooperação internacional para ser monitorado. A avaliação da FATF oferece um panorama sobre como redes informais estão incorporando tecnologias presentes no mercado de pagamentos e no ecossistema de criptoativos.
O relatório não propõe, na pauta apresentada, uma legislação específica para stablecoins. Seu foco está na identificação de riscos e na necessidade de compreender como sistemas tradicionais de transferência se conectam a novas ferramentas digitais. Para o mercado de ativos virtuais, o documento reforça a importância de analisar o contexto de uso de cada instrumento, sem equiparar criptoativos a atividades ilícitas.