As métricas usadas para medir a atividade em criptoativos, stablecoins e finanças descentralizadas (DeFi) podem apresentar resultados muito diferentes conforme o método de análise. Essa é a principal conclusão de um estudo publicado em 15 de setembro de 2026 pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS).
O trabalho examinou dados de blockchains públicas como Bitcoin, Ethereum e Tron para avaliar como indicadores on-chain são construídos. Segundo a pesquisa, a simples soma de transações pode combinar operações economicamente relevantes com movimentos gerados pela própria infraestrutura das redes, como transferências internas, criação de tokens e interações automatizadas com contratos inteligentes.
Na prática, isso significa que números frequentemente apresentados como sinais de crescimento ou intensidade de uso de uma blockchain podem não representar uma única realidade. O volume movimentado, a quantidade de transações e o número de contratos ativos dependem da forma como os dados são classificados, filtrados e relacionados entre si.
Metodologias diferentes produzem resultados distintos
Um dos resultados destacados pelo BIS envolve o Bitcoin. De acordo com o estudo, os valores atribuídos às transações da rede podem variar em até seis vezes quando são aplicados métodos diferentes de medição. A diferença não decorre necessariamente de uma mudança na blockchain, mas da maneira escolhida para identificar e contabilizar as operações.
Essa constatação afeta a leitura de rankings e relatórios que comparam redes, períodos ou segmentos do mercado de ativos digitais. Sem conhecer as premissas utilizadas, uma métrica pode parecer precisa, embora esteja reunindo categorias distintas de atividade. Para o BIS, a transparência sobre o método é essencial para que os indicadores possam ser interpretados de forma adequada.
O estudo também classificou aproximadamente 13 milhões de contratos ativos, incluindo cerca de 1,4 milhão de tokens. Esses números ajudam a dimensionar a complexidade do ecossistema analisado, mas não devem ser lidos isoladamente como uma medida direta de adoção, uso econômico ou relevância de cada projeto.
Stablecoins concentram parte importante da atividade
Outro ponto observado pelos pesquisadores é a forte concentração da atividade de negociação em torno das stablecoins. Esses ativos digitais, geralmente estruturados para acompanhar o valor de uma moeda ou referência estável, aparecem em diversas operações e podem assumir funções diferentes conforme a rede e o tipo de aplicação analisados.
O comportamento de uma mesma stablecoin também não é uniforme entre blockchains. Na Ethereum, os dados examinados pelo BIS indicam uma associação maior com interações envolvendo contratos inteligentes. Isso inclui operações realizadas dentro de aplicações descentralizadas, nas quais os contratos executam regras previamente programadas.
Na Tron, por outro lado, os dados sugerem uma presença maior de stablecoins mantidas fora de contratos inteligentes. Nesse contexto, a utilização aparece mais relacionada a transações e reserva de valor. A comparação mostra que o mesmo tipo de ativo pode desempenhar funções diferentes dependendo da infraestrutura em que circula.
Por que os dados on-chain exigem cautela
As blockchains públicas registram informações de maneira aberta e verificável, mas isso não elimina a necessidade de interpretação. O desafio está em transformar registros técnicos em indicadores capazes de descrever atividade econômica, uso por pessoas e empresas ou movimentação dentro de aplicações financeiras descentralizadas.
Uma transferência interna, por exemplo, pode ser contabilizada de forma diferente de uma operação entre participantes independentes. Da mesma forma, interações automatizadas com contratos inteligentes podem gerar muitas transações sem que isso corresponda, na mesma proporção, a usuários distintos ou a um aumento equivalente na atividade econômica.
Por esse motivo, métricas como volume negociado, número de transações, quantidade de endereços e valor total bloqueado em protocolos DeFi precisam ser examinadas em conjunto. O estudo do BIS não elimina a utilidade desses indicadores, mas reforça que cada um deles responde a uma pergunta específica e pode carregar limitações próprias.
Impacto para investidores, reguladores e empresas de análise
A discussão é relevante para investidores institucionais, reguladores, desenvolvedores de blockchain e empresas que produzem análises on-chain. Indicadores bem definidos podem melhorar comparações entre redes e ajudar na avaliação de tendências. Métricas pouco contextualizadas, por outro lado, podem exagerar o tamanho de determinados mercados ou ocultar diferenças importantes entre os tipos de uso.
Para quem acompanha Bitcoin, Ethereum, Tron, stablecoins e DeFi, a principal orientação do estudo é observar como os dados foram obtidos antes de tirar conclusões. A metodologia, a classificação das operações e a separação entre atividade automatizada e atividade econômica efetiva são elementos centrais para interpretar o crescimento das redes.
Ao analisar a complexidade dos ecossistemas de criptoativos, o BIS coloca a qualidade da medição no centro do debate. A transparência dos registros continua sendo uma característica fundamental das blockchains, mas a leitura desses registros depende de critérios técnicos capazes de distinguir infraestrutura, automação, negociação e uso financeiro.
Fonte utilizada
Banco de Compensações Internacionais (BIS), Working Paper 1377, “Hidden by complexity? Measuring stablecoin, crypto and decentralised finance ecosystems”, publicado em 15 de setembro de 2026.