Taiza Tosatt Eleoterio fala sobre assistência social e acolhimento no recomeço pós-abuso

Diego Velázquez
Diego Velázquez
Taiza Tosatt Eleoterio

Sair de um relacionamento abusivo é, para muitas mulheres, apenas o começo de uma jornada longa e repleta de incertezas. O momento em que se decide deixar uma relação marcada pelo medo, pelo controle e pela violência carrega em si uma coragem enorme, mas também desperta questões que podem parecer paralisantes: para onde vou? Como vou sobreviver? Quem vai me ajudar? Esse processo de reconstrução, embora desafiador, é também transformador, e está entre os temas centrais da atuação de Taiza Tosatt Eleoterio, psicanalista especializada em saúde mental e relações familiares com foco no apoio a mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade.

Por que o período após a saída é tão difícil?

Quando falamos em violência doméstica, a atenção costuma se concentrar nos momentos críticos: as agressões, as ameaças, o ciclo de tensão e aparente reconciliação. Pouco se discute, no entanto, sobre o período que vem depois da saída, aquele espaço de tempo em que a mulher precisa reorganizar a própria vida, muitas vezes sem renda, sem moradia, sem rede de apoio e com filhos para cuidar. Do ponto de vista psicanalítico, esse momento é atravessado por camadas profundas de sofrimento que não desaparecem automaticamente com a separação. A dependência emocional construída ao longo do relacionamento deixa marcas que precisam ser elaboradas e cuidadas sem julgamento.

Sentimentos de culpa, medo de não conseguir seguir em frente, luto pela relação idealizada e, paradoxalmente, a saudade do parceiro abusivo são vivências comuns que afetam muitas mulheres nesse período. Compreender esses afetos sem julgamento é parte essencial do processo de recuperação: muitas mulheres se surpreendem ao sentir falta de alguém que as machucou, e isso não é fraqueza, mas o reflexo de um vínculo construído de forma intensa, muitas vezes marcado desde o início pela alternância entre afeto e dor. É justamente esse tipo de elaboração que orienta o trabalho clínico de psicanalistas como Taiza Tosatt Eleoterio.

O que a assistência social oferece na prática?

Nenhum recomeço acontece da noite para o dia. Para que uma mulher consiga reconstruir sua vida após deixar uma situação de abuso, ela precisa de uma estrutura concreta de apoio, e é aí que entram os serviços de assistência social. No Brasil, a rede de proteção a mulheres em situação de vulnerabilidade inclui equipamentos públicos, como os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e os Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS), além das Casas da Mulher Brasileira e dos abrigos disponíveis em diversos municípios. Esses serviços oferecem desde orientação jurídica e psicológica até apoio na busca por moradia e geração de renda.

O acesso a esses recursos pode ser decisivo na trajetória de reconstrução. Quando uma mulher chega a um serviço de acolhimento e encontra uma equipe que a ouve sem julgá-la, que lhe oferece uma cesta básica, um colchão, um endereço seguro. Isso é muito mais do que assistência material: é a mensagem concreta de que ela importa, de que há um lugar para ela no mundo. A cesta básica, nesse contexto, deixa de ser apenas um conjunto de alimentos e passa a representar algo muito maior: a possibilidade de cuidar dos filhos, de ter um dia a menos de desespero, de encontrar fôlego para pensar no próximo passo.

Como acessar locais seguros de acolhimento?

Para mulheres que estão em situação de risco imediato ou que precisam deixar o lar às pressas, os abrigos e casas-abrigo representam uma alternativa fundamental. Esses espaços oferecem moradia temporária com segurança, sigilo de endereço e, em muitos casos, acompanhamento multidisciplinar que inclui assistentes sociais, psicólogos e advogados. O acesso pode ser feito por diferentes vias: pelo Disque 180 (Central de Atendimento à Mulher), pelas delegacias especializadas, pelos CRAS e CREAS ou diretamente em unidades de saúde. Em situações de emergência, o contato com o 190 ou o 192 também pode ser o primeiro passo para acionar a rede de proteção.

A mulher que já sabe que existe um lugar para onde ir tem mais chances de agir quando encontra coragem. Por isso, falar sobre esses recursos abertamente, na comunidade, na igreja, na escola dos filhos, é também uma forma de proteção. Tornar essas informações acessíveis e conhecidas é, em si, um ato de prevenção, e é um dos pontos que atravessam o trabalho de orientação conduzido por Taiza Tosatt Eleoterio junto a mulheres e famílias em situação de risco.

O desafio econômico para famílias em situação de vulnerabilidade

Para famílias em situação de vulnerabilidade econômica, a saída de um relacionamento abusivo pode representar também um desafio financeiro imenso. Muitas mulheres eram economicamente dependentes do parceiro e, ao deixar a relação, precisam reconstruir não apenas a estabilidade emocional, mas também a estabilidade financeira. Nesse cenário, as redes comunitárias, como igrejas, associações de bairro, grupos de mães e coletivos de mulheres, têm um papel que vai muito além da solidariedade pontual. Elas criam vínculos, oferecem acolhimento, pertencimento e, frequentemente, abrem portas para oportunidades de trabalho, capacitação profissional e apoio mútuo.

O isolamento é uma das ferramentas mais poderosas do abuso. O agressor muitas vezes afasta a mulher de sua família, de suas amigas, de sua comunidade, e reconectar-se a esses vínculos é parte do processo de cura. Reconstruir uma rede de relações saudáveis não é um mero capricho: é uma necessidade concreta para quem está refazendo a própria vida a partir do zero.

Quando a coragem de recomeçar abre novos caminhos

Reconstruir a vida após um relacionamento abusivo não é um processo curto ou linear. Há avanços e recuos, dias de certeza e dias de dúvida, dias de coragem e dias de medo, e tudo isso faz parte de uma jornada que é profundamente humana. Esse é o tipo de processo acompanhado de perto no trabalho de Taiza Tosatt Eleoterio: um espaço em que a mulher pode elaborar o que viveu, compreender os padrões que a levaram àquela relação e construir uma nova relação consigo mesma, em que ela ocupa o centro da própria história.

O recomeço não é o fim da dor, mas é o início da possibilidade. E a possibilidade, para quem viveu tanto tempo sem ela, já é muito. É nesse espaço, entre o que foi vivido e o que ainda pode ser construído, que a esperança encontra o seu lugar.

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