Ilhas de calor urbano: o papel da arquitetura no combate ao aquecimento das cidades

Diego Velázquez
Diego Velázquez
Daugliesi Giacomasi Souza

Uma cidade à noite guarda um calor que o termômetro sozinho não explica. Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, acompanha de perto esse fenômeno, criado pela própria estrutura urbana e cada vez mais presente nas decisões de projeto. Em cidades como São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, a concentração de concreto, asfalto e baixa cobertura vegetal intensifica esse efeito, conhecido tecnicamente como ilha de calor urbana. Aqui, você entenderá melhor por que a arquitetura, muito além da estética, se tornou ferramenta concreta de combate ao aquecimento das cidades.

O calor que a cidade fabrica sozinha

Uma ilha de calor urbana se forma quando uma região construída registra temperaturas visivelmente superiores às de áreas rurais ou arborizadas no entorno, efeito que se soma ao aquecimento global em vez de substituí-lo. Grande concentração de construções, tráfego intenso e escassa cobertura vegetal explicam boa parte desse fenômeno, mais perceptível durante a noite, quando o concreto e o asfalto liberam lentamente o calor acumulado ao longo do dia inteiro.

Como pontua Daugliesi Giacomasi Souza, o chamado calor antropogênico, produzido diretamente por atividades humanas, agrava ainda mais esse cenário nas grandes cidades brasileiras. Aparelhos de ar-condicionado, sistemas de refrigeração e a alta circulação de veículos liberam calor adicional no ambiente urbano, criando um ciclo em que o esforço para se refrescar contribui, paradoxalmente, para aquecer ainda mais o entorno imediato de cada edificação.

Cor e material: a primeira linha de defesa térmica

Superfícies escuras absorvem grande parte da energia solar que recebem e a liberam lentamente na forma de calor, enquanto superfícies claras ou reflexivas devolvem boa parte dessa energia para a atmosfera sem aquecer o ambiente ao redor. O asfalto, principal material de pavimentação usado no país, exemplifica bem esse problema, mantendo a temperatura do entorno elevada mesmo horas depois do pôr do sol.

Daugliesi Giacomasi Souza
Daugliesi Giacomasi Souza

Segundo relata Daugliesi Giacomasi Souza, essa lógica de absorção e reflexão de calor já orienta escolhas de projeto que vão muito além do asfalto, incluindo revestimentos de fachada, coberturas e até a cor escolhida para calçadas e áreas de convivência pública. Substituir materiais escuros por opções mais claras em telhados e superfícies pavimentadas representa uma das intervenções mais simples e de menor custo disponíveis para reduzir o acúmulo de calor em regiões densamente construídas.

Vegetação como infraestrutura, não paisagismo decorativo

Árvores urbanas funcionam como uma espécie de sistema natural de refrigeração das cidades, resfriando o ar por meio da evapotranspiração e oferecendo sombra que reduz diretamente a temperatura percebida em ruas e praças. Coberturas verdes e jardins verticais aplicam essa mesma lógica na escala do edifício, criando camadas vegetais que isolam termicamente as construções e reduzem a necessidade de climatização artificial durante boa parte do ano.

Na compreensão de Daugliesi Giacomasi Souza, tratar a vegetação urbana como infraestrutura de resfriamento, e não apenas como elemento paisagístico decorativo, muda a forma como projetos públicos e privados priorizam investimento em áreas verdes. Pavimentos permeáveis, que permitem a infiltração da água da chuva no solo, complementam essa estratégia ao reduzir enchentes e favorecer o resfriamento natural do terreno ao redor das edificações.

Cinco cidades brasileiras como laboratório de soluções

Campinas, Florianópolis, Fortaleza, Recife e Teresina integram um programa de capacitação voltado especificamente a soluções baseadas na natureza e a estratégias passivas de resfriamento urbano, conduzido por uma organização internacional de pesquisa climática até o início de 2026. A iniciativa reconhece que modificar a geometria de uma cidade já consolidada é tarefa difícil, mas que novas áreas em expansão ainda podem ser planejadas considerando a circulação de vento e a orientação solar desde o início do projeto urbano.

Conforme ilustra Daugliesi Giacomasi Souza, esse tipo de programa mostra que o combate às ilhas de calor exige articulação entre poder público, arquitetos e urbanistas, já que soluções isoladas em um único edifício dificilmente revertem um fenômeno formado na escala de bairros inteiros. Em suma, cidades que conseguem alinhar arborização, materiais adequados e planejamento urbano coordenado tendem a sentir o calor de forma bem diferente das que seguem apostando apenas em mais concreto e mais ar-condicionado.

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