Computação quântica pode quebrar o Bitcoin? O que diz a ciência

Diego Velázquez
Diego Velázquez

Estudos recentes tentam responder se máquinas quânticas representam ameaça real à criptografia do Bitcoin, e o resultado surpreende quem espera um cenário apocalíptico

A cada avanço da computação quântica, ressurge a mesma pergunta no mercado cripto: será que essa tecnologia pode, um dia, quebrar a criptografia que protege o Bitcoin? O tema deixou de ser apenas um debate teórico e passou a ocupar relatórios de instituições financeiras, estudos acadêmicos e até planos de contingência de grandes empresas de tecnologia. A boa notícia, segundo pesquisadores que se debruçaram sobre o problema, é que o cenário mais alarmista está bem mais distante do que sugerem as manchetes sensacionalistas. A má notícia é que o risco não é nulo, e o tempo que resta até que ele se torne concreto deve ser usado, segundo especialistas, para preparar a infraestrutura que hoje guarda trilhões de dólares em ativos digitais.

Como funciona a ameaça teórica da computação quântica à criptografia

O ponto de partida para entender essa discussão é técnico, mas pode ser resumido de forma simples. O Bitcoin depende de dois pilares criptográficos: o algoritmo SHA-256, usado na mineração e na prova de trabalho que sustenta a rede, e o ECDSA, responsável por proteger as assinaturas que autorizam a movimentação de fundos entre carteiras. Computadores quânticos, ao contrário dos computadores tradicionais, conseguem processar determinados tipos de problema matemático de forma exponencialmente mais rápida, graças a algoritmos como o de Grover e o de Shor. Na teoria, uma máquina quântica suficientemente poderosa poderia usar o algoritmo de Shor para derivar uma chave privada a partir de uma chave pública exposta na blockchain, o que abriria caminho para movimentar fundos sem autorização do dono original.

Um relatório da empresa suíça Taurus, especializada em custódia de ativos digitais e divulgado em junho de 2026, detalha esse risco com precisão técnica. Segundo o documento, nenhum computador quântico existente hoje possui poder computacional suficiente para executar o algoritmo de Shor e comprometer a criptografia de chave pública usada em aplicações reais. Ainda assim, o relatório destaca que a trajetória de desenvolvimento da tecnologia aponta para um cenário, em alguns anos, no qual máquinas com centenas de milhares de qubits poderão tornar obsoletos os padrões criptográficos usados hoje tanto pelo Bitcoin quanto pelo Ethereum. É justamente essa distância entre o presente tecnológico e o futuro projetado que divide as opiniões no setor. SpaceMoney

O que dizem os estudos mais recentes sobre o risco real

Um dos estudos mais citados sobre o tema, conduzido por pesquisadores ligados à empresa BTQ Technologies e publicado em março de 2026, buscou calcular especificamente quanto de energia seria necessário para que um computador quântico conseguisse minerar Bitcoin mais rápido do que toda a rede mundial combinada, usando o algoritmo de Grover. O resultado surpreendeu: os pesquisadores concluíram que um ataque desse tipo exigiria uma quantidade de energia comparável à produzida por uma estrela. Em termos práticos, isso significa que, embora a matemática por trás da ameaça seja real, os requisitos físicos e energéticos para executá-la hoje tornam esse cenário inviável em qualquer horizonte de tempo próximo.

Outros pesquisadores, no entanto, adotam um tom de maior cautela quanto ao prazo. A empresa de segurança quântica Project Eleven estima que computadores quânticos poderão ter capacidade de quebrar a criptografia do Bitcoin em algum momento entre 2030 e 2042, uma janela ampla, mas que os próprios pesquisadores classificam como um risco real de gestão, e não apenas um exercício futurista. Já a Google estabeleceu internamente a meta de migrar suas próprias estruturas de segurança para padrões de criptografia pós-quântica até 2029, o que mostra que grandes empresas de tecnologia já tratam o tema como algo a ser endereçado dentro de um horizonte concreto, e não como ficção científica distante. BeInCrypto Brasil

Como o setor cripto se prepara para a era pós-quântica

Diante desse cenário, desenvolvedores e instituições ligadas ao Bitcoin já discutem alternativas técnicas para blindar a rede antes que a ameaça se torne real. Uma das propostas em debate sugere limitar gradualmente a quantidade de bitcoins que podem ser movimentados a partir de endereços considerados vulneráveis por bloco, funcionando como uma espécie de controle de fluxo em caso de risco quântico concreto. Essa e outras propostas de governança ainda estão em fase de discussão dentro da comunidade de desenvolvedores do Bitcoin, mas mostram que o ecossistema já trata o assunto como parte do planejamento de longo prazo da rede, e não como problema a ser resolvido apenas quando surgir.

O Brasil também entrou nessa conversa. Segundo reportagem da Cointelegraph, o país prepara seus primeiros computadores quânticos operacionais, de até 100 qubits, ao mesmo tempo em que o Banco Central avança em estudos sobre segurança pós-quântica. Um relatório da Taurus destaca que o ponto central não é que essas máquinas brasileiras sejam capazes de quebrar a criptografia das blockchains hoje, mas sim que a tecnologia escolhida agora por instituições que custodiam criptoativos pode determinar a velocidade, ou até a viabilidade, de uma futura migração para padrões de segurança mais robustos. O Banco Central do Brasil já participou, inclusive, de um estudo conjunto com Brazil Quantum, Microsoft e Fenasbac sobre algoritmos resistentes a ataques quânticos aplicados ao Pix. Cointelegraph

O que fica claro diante desses estudos é que a ameaça quântica ao Bitcoin é real do ponto de vista matemático, mas está longe de ser uma emergência imediata. O tempo entre hoje e um cenário de risco concreto, estimado por especialistas entre o final desta década e o início da próxima, é justamente a janela que empresas de custódia, exchanges e desenvolvedores da rede pretendem usar para migrar gradualmente para padrões de criptografia pós-quântica. Este conteúdo tem finalidade exclusivamente educativa e informativa, sem qualquer recomendação relacionada a investimentos em criptoativos.

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